As tradições chegam às escolas como chegam às famílias: todos os anos, pela mesma altura, com gestos que já conhecemos. Em novembro, o S. Martinho traz o magusto, o cheiro a castanhas assadas e as conversas à volta do lume. Parecem apenas momentos de festa. São também momentos de aprendizagem.
Uma tradição liga quem a vive a quem a viveu antes. Quando uma criança ouve os avós contar como se fazia o magusto noutros tempos, ou ajuda a escolher as castanhas que vai levar para a escola, percebe que pertence a uma história maior do que a sua. Essa pertença dá segurança. Saber de onde se vem ajuda a perceber para onde se vai.
As tradições de outono falam também do tempo das colheitas. Durante gerações, era por esta altura que se recolhia o trabalho de um ano inteiro e se repartia o que a terra tinha dado. A lenda de S. Martinho, que dividiu a capa com quem tinha frio, guarda a mesma ideia: o que se recebe ganha valor quando se partilha. As crianças entendem bem esta lição quando a vivem, de mãos sujas de cinza, ao lado dos colegas.
Na escola, manter vivas estas tradições é uma escolha pedagógica. Com elas, os alunos aprendem a esperar pela vez junto ao lume, a dividir o que há, a cuidar dos mais novos e a agradecer. Num tempo em que quase tudo chega depressa e se consome a sós, um magusto convida a parar e a estar com os outros.
As tradições aprendem-se a fazer, ano após ano, com quem está ao nosso lado. É por isso que as guardamos: porque nos ensinam a partilhar.
Fernando Fidalgo · Diretor Pedagógico Nacional
Para esta semana | Colheitas, magusto e bem-estar emocional
As tradições de outono são uma boa ocasião para estar em família. Mais do que a festa, conta o tempo partilhado: é nele que as crianças se sentem seguras, ouvidas e parte de um grupo. Deixamos algumas sugestões simples para viver estes dias em casa e no colégio.
Escolher as castanhas, golpeá-las com a ajuda de um adulto, assá-las e servi-las: cada etapa pode ter uma tarefa à medida da idade. Quando a criança participa na preparação, a festa passa a ser também sua. O lume fica sempre a cargo de um adulto.
Juntar avós, primos ou vizinhos à volta das castanhas cria um tempo de convívio que as crianças guardam. Combinar uma hora sem ecrãs, contar histórias e lendas e dividir o que há ensina a esperar pela vez, a oferecer e a agradecer.
O outono é o tempo de recolher o que a terra deu. Uma visita a um mercado, a uma horta ou a um pomar, ou simplesmente olhar para a fruta da época à mesa, ajuda a perceber de onde vêm os alimentos e o trabalho que há por trás de cada um.
Repetir todos os anos o mesmo gesto, a mesma receita ou a mesma canção dá às crianças uma sensação de continuidade. Os rituais previsíveis ajudam a regular as emoções e reforçam o sentimento de pertença à família.
Contar e separar castanhas por tamanhos, apanhar folhas para um desenho ou ouvir a lenda de S. Martinho são formas simples de participar. No fim do dia, pergunte do que gostou mais e como se sentiu. Dar nome ao que sentiu, a alegria, a vontade de repetir ou o cansaço do barulho, ajuda a criança a conhecer as suas emoções.
Peça-lhe que entreviste os avós sobre os magustos de quando eram pequenos, ou que ajude a dividir as castanhas de forma justa entre todos. Pequenas responsabilidades, como pôr a mesa ou servir os mais novos, dão à criança um lugar seu na festa e reforçam a confiança.
Nesta fase, os amigos ganham muito peso. Convidar um amigo para o magusto da família, ou deixar que organize o lanche, junta os dois mundos. Conversar sobre as tradições da família, a partir de fotografias antigas, ajuda os jovens a perceber de onde vêm, sem os obrigar a participar como quando eram pequenos.
Os jovens podem assumir o papel de quem organiza e de quem ensina os mais novos. É também uma boa ocasião para conversar sobre a origem dos alimentos, a época de cada produto e o valor do que se partilha. Num período de avaliações, uma tarde sem pressa em família é tempo bem gasto.
Para algumas crianças, as festas com muita gente e muito barulho podem ser difíceis, sobretudo para as mais tímidas ou para quem passa por uma mudança ou por uma perda na família. Respeite o ritmo de cada uma e deixe-a participar à sua maneira. Se notar tristeza, isolamento ou ansiedade que se prolongam, fale com a educadora, o professor titular ou o diretor de turma, ou com os serviços de psicologia do colégio.
Desejamos a todas as famílias uma semana com tempo para estar juntos, ao calor das tradições.
Sexta-feira, 20 de novembro
Pré-escolar e 1.º ciclo
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